Sábado, 21 de Julho de 2018

Considerações sobre as tensões comerciais e suas implicações para a economia mundial


 

As tensões comerciais, iniciadas pelos EUA, começaram a ganhar força neste ano e, nos últimos meses, têm sido concretizadas. Os impactos sobre confiança, mercados e economia já podem ser observados. Esses conflitos tendem a ultrapassar as relações comerciais, chegando às decisões de investimentos e, a China, por ora, se coloca como principal contraponto direto das ações dos EUA. Como não há perdedores e vencedores óbvios e, sabendo que o protecionismo tende a gerar perdas econômicas agregadas, especialmente no longo prazo, entendemos que essas tensões seguirão presentes nos próximos trimestres, sem desfecho claro. Isso só aumenta os riscos e desafios do cenário global, fortalecendo tendências já em curso, como fortalecimento do dólar, desaceleração do ritmo de crescimento da economia mundial e impactos adversos sobre economias emergentes. 

 

Diante disso, cabem algumas considerações e alguns fatos estilizados sobre a guerra comercial, que nos ajudam a traçar possíveis cenários, como foco na economia chinesa.

1. Movimentos começaram unilateralmente por parte dos EUA. São políticas de cunho protecionista, que marcam a gestão de Donald Trump até aqui. A definição das ações tem sido pautada em questões de segurança nacional e investigações relacionadas à transferência de tecnologia e ao desrespeito aos direitos de propriedade intelectual. Inicialmente, projetos grandes como o TPP (Acordo Transpacífico de Cooperação Econômica) foram suspensos e o NAFTA (acordo entre EUA, México e Canadá) está em processo de revisão de seus termos. Mas o foco da fase atual tem se concentrado principalmente nas relações bilaterais (sem usar mecanismos já estabelecidos pela OMC) e/ou desequilíbrios comerciais em setores específicos, como automotivo e siderúrgico. Vale notar que a maioria da população norte-americana tem aprovado essa agenda, reforçando que as medidas do lado dos EUA devem avançar. A reação global, contudo, não é favorável ao protecionismo, mas até agora ações americanas têm prevalecido e motivado retaliações. Na última sexta-feira, a Rússia também anunciou aumentos entre 25% e 40% das tarifas de importação de produtos vindos dos EUA, em reposta às ações voltadas às compras de aço e alumínio;

 

2. O atrito com a China tem avançado rapidamente, sendo mais amplo e conflituoso, com ações diretas, retaliando as medidas adotadas pelos EUA. A China foi impactada praticamente em todas as medidas adotadas até agora (inicialmente máquinas de lavar roupa/painel solar, aço/alumínio, mas depois medidas diretas). As sobretaxas já implementadas ou anunciadas pelo governo norte-americano atingem algo como US$ 250 bilhões em compras provenientes da China: (i) na última sexta-feira, US$ 34 bilhões de importações começaram a ser sobretaxados em 25% (houve resposta do lado chinês na mesma magnitude) e, em breve, mais US$ 16 bilhões serão tarifados com essa alíquota; (ii) nesta semana, foi anunciada uma tarifa extra de 10% sobre US$ 200 bilhões em compras anuais vindas do país asiático. Além disso, restrições de investimentos devem ser formalizadas e ações diretas a empresas, como já ocorrido neste ano a uma empresa de tecnologia chinesa, não devem ser descartadas;

 

3. O contexto da China dos últimos anos é muito importante para se entender as reações atuais. A posição geopolítica do país mudou bastante, ultrapassando as relações comerciais – já estabelecidas com a entrada na OMC, que levaram o país a ocupar o posto de maior exportador mundial. A China hoje é importante investidora global (a terceira maior investidora e a segunda maior receptora de investimentos estrangeiros diretos), tem projetos audaciosos como One Belt One Road1, fez várias aquisições de empresas estratégicas em muitos países (especialmente desenvolvidos e no setor de tecnologia) e já é a principal parceira comercial da grande maioria dos países, além de ser o segundo país que mais investe em defesa militar no mundo e ter uma crescente presença militar na Ásia;

 

4. A relação de desequilíbrio entre EUA e China vai além do déficit comercial, sempre argumentado pelos norte-americanos. Os padrões de investimentos e de serviços também merecem ser destacados, o que agrava as tensões.

 
- O déficit comercial vem crescendo nos últimos anos. Nos últimos 12 meses, os EUA acumularam saldo negativo de US$ 389 bilhões com a China (gráfico 1). Para tanto, os norte-americanos importaram US$ 523 bilhões e exportaram US$ 134 bilhões. Mas os EUA têm superávit de serviços com a China. Nos últimos 12 meses, esse montante chegou a US$ 38 bilhões e se concentra nas contas de turismo, serviços financeiros e direitos de propriedade intelectual;

 

- Os EUA investem em setores diferentes quando comparamos com as últimas inversões feitas pela China naquele país. O maior descompasso existe em segmentos tecnológicos, imobiliário e financeiro, com presença chinesa nos EUA, enquanto não há contrapartida de investimentos norte-americano nesses setores na China (gráficos 5 e 6);

 

- A China parece mais dependente dos EUA do que o contrário. Os EUA compraram US$ 523 bilhões da China (21,6% do total importado pelos EUA e 20% do que a China exporta, gráfico 2) e a China comprou US$ 162 bilhões dos EUA2 (8,1% do total importado pela China e 8,3% do que os EUA exportam), considerando os últimos doze meses (gráfico 3). De acordo com a Comissão Europeia, a elasticidade (negativa) das importações chinesas a preço é mais baixa do que a das importações norte-americanas, porque a pauta chinesa é mais difícil de ser substituída (concentrada em soja, aviões e veículos), conforme evidenciado no gráfico 7. Ao mesmo tempo, os EUA exportam muitas commodities, que podem ter outros mercados compensando parcialmente a China (gráficos 13 e 14 ilustram as pautas de comércio entre os dois países);

 

- O “limite” das ações de retaliação por parte da China via aumento de tarifas é mais restrito, dado que o montante importado dos EUA é inferior a esses US$ 250 bilhões impactados por sobretaxas (US$ 34 bilhões já implementados com tarifa adicional de 25%, US$ 16 bilhões anunciados com essa mesma tarifa extra e US$ 200 bilhões anunciados com tarifa adicional de 10%);

 

5. Ainda que nem todas as ameaças potenciais tenham sido concretizadas até agora, caso implementadas, deverão levar a um aumento das tarifas mundiais. Além disso, a China tem reagido como forma de compensação a possível perda de PIB decorrente das exportações. Estimamos para o país uma perda entre 0,1 p.p. a 0,5 p.p., caso a guerra comercial tome proporções maiores. A rápida e expressiva depreciação da moeda chinesa (gráfico 11), os dois cortes do compulsório anunciados nos últimos meses, a conquista de novos mercados alternativos aos EUA são respostas compensatórias à possível redução efetiva das suas vendas. Outras ações podem ser tomadas, como o aumento da repatriação das operações chinesas nos EUA (o que já está acontecendo, conforme gráfico 12), o boicote da compra de produtos americanos na China, a expulsão e/ou maior dificuldade da operação de empresas norte-americanas do território chinês, a triangulação de mercados, a redução dos produtos exportados. Há possibilidades, aparentemente não viáveis, como a venda de títulos norte-americanos, bastante negativas para os dois lados e que revelam quão difícil é a condução da relação entre os dois países;

 

6. Interessante notar a estratégia dos EUA em especial na relação com a China. A revisão da lista anunciada no início de abril para a que começou a valer na última sexta-feira exclui importantes bens de consumo como celular e inclui equipamentos médicos. Essa mudança tem dois objetivos, na nossa visão. Primeiramente, não encarecer bens de consumo para o consumidor norte-americano (já que com aumento das tarifas e/ou produção nos EUA, itens como celulares subiriam de preços). Mas ela tem como alvo também inviabilizar a estratégia China 2025, do governo chinês, que tem como foco o upgrade da indústria local, com a priorização de segmentos de alta tecnologia. Os gráficos 9 e 10 ilustram essa mudança de estratégia;

 

7. Os efeitos de equilíbrio geral são difíceis de serem medidos, caso essas tensões tenham desdobramentos globais, com retaliações múltiplas e impacto nos preços de mercado. Ainda que as tarifas implementadas até agora não tenham conseguido impactar de forma significativa as exportações, a frustração com o desempenho da Europa e o comportamento dos preços de ativos e das moedas já incorporam parcialmente os efeitos adversos do aumento do protecionismo. Cadeias integradas, especialmente na Ásia, tendem a sentir bastante, haja vista a integração das indústrias desses países com a China e o conteúdo importado dos produtos exportados (gráfico 8). Além do impacto de curto prazo na transação de bens e serviços, há possíveis efeitos negativos sobre as decisões de investimentos e fluxos de capitais de médio e longo prazo, se o ambiente de tensão e incerteza de regras comerciais se intensificar. Outra dificuldade em estimar o efeito total dessas medidas está relacionada às alternativas encontradas pelo mercado. Por exemplo, notícias dão conta de que o Brasil aumentará as exportações de soja para a China e, para atender a demanda doméstica, importará dos EUA, que deixará de vender diretamente para o país asiático;

 

8. Extrapolando os impactos para o Brasil, os efeitos de uma guerra comercial não são positivos, à medida que sofreremos do menor crescimento global e da elevação da aversão ao risco. Ainda que temporariamente alguns poucos benefícios sejam apontados, como o aumento do preço da soja brasileira em relação à norte-americana, no médio prazo isso deve se dissipar, dada a resposta razoavelmente rápida da oferta mundial da commodity. Da mesma forma, caso a China não tenha o mercado dos EUA para escoar seus produtos e seus investimentos, não seremos os únicos destinos alternativos. E também não é trivial atender o mercado dos EUA no lugar da China;

 

9. Estimamos uma perda entre 0,3 e 0,4 p.p. do crescimento do PIB mundial entre 2018 e 2019, caso os EUA avancem nas medidas contra a China e a Europa, principalmente. Menção deve ser feita à Europa, região bastante aberta e dependente de exportações. As ameaças norte-americanas, de elevarem em 20% as tarifas de importações de veículos europeus, devem impactar diretamente a economia da região, lembrando que atualmente valem as taxas de 2,5% de importação do lado dos EUA e de 10% do lado europeu3; 

 

10. Difícil prever o desfecho dessas tensões, mas acreditamos que há uma perda de dinamismo global, fluxos de capitais menos intensos, com correção de preços dos ativos e uma possível “guerra cambial”. Efeito sobre confiança e decisões de investimentos também tende a ser negativo. Impacto relevante deve se dar sobre as diversas multinacionais, não apenas as norte-americanas, que usam a China como base de exportação para os EUA. A China deve ceder a algumas pressões, com abertura de mercados. De fato, no final deste mês serão flexibilizados os investimentos estrangeiros na China em setores como automotivo, agricultura, infraestrutura e exploração de mineração. A “lista negativa” deve cair de 63 para 48 segmentos, uma vez que setores estratégicos como segurança nacional e cultura continuarão fechados.

 

 

ATENÇÃO:
O BRADESCO não solicita em seus e-mails, em hipótese alguma:
- Atualização de cadastro ou qualquer outro tipo de informação pessoal;
- Números da Agência, conta corrente ou poupança, senhas ou números do Cartão de Crédito
O BRADESCO não envia em seus e-mails arquivos anexados que são executáveis.
- Arquivos executáveis são os que realizam comandos quando abertos pelo usuário. Não há regras, mas as extensões mais comuns para esses arquivos são EXE, BAT, SCR e COM.